O amor prova a espiritualidade e conduz à Missão

Nesses dias tenho pensado sobre os essenciais do Cristianismo. Estou convicto que os periféricos da vida e ministério podem facilmente nos desviar da prática do Cristianismo bíblico e simples, fazendo com que nossa atenção, energias, dons e relacionamentos se desgastem nas notas de rodapé de uma religiosidade quase vazia. Há diversos essenciais na vida Cristã. Um deles é o amor.

Preocupo-me quando apregoamos uma verdadeira espiritualidade, mas não amamos, quando a Igreja não consegue chorar com os que choram, ou quando nossos relacionamentos vão se tornando cada vez menos sinceros e mais utilitários. Preocupo-me quando o mundo age com mais graça e misericórdia com o caído do que o povo de Deus o faz. Preocupo-me quando a Igreja passa a definir sua experiência de fé a partir de seus ajuntamentos solenes e não dos seus relacionamentos diários. Preocupo-me quando não amamos.

Ao escrever a primeira carta aos Coríntios, Paulo reserva os capítulos 12 e 14 para expor sobre os dons espirituais, pois era um assunto de relevância e necessidade. Entre os dois capítulos sobre dons espirituais, Paulo enxerta um dos textos mais definidores da nossa fé: o capítulo 13, o qual nos apresenta a centralidade do amor na vivência Cristã. Mostra-nos, assim, a possibilidade de sermos uma Igreja com aparência, forma e discurso espiritual, mas de fato carnal, um corpo com a presença de dons espirituais, mas sem o essencial do Cristianismo. A mensagem nesse capítulo é clara: o amor é superior aos dons.

Sempre leio com temor os três primeiros versículos desse capítulo, pois confrontam minha vida ao afirmar que podemos ter dons espirituais, tamanha fé ou praticar toda sorte de ações sociais, porém, sem amor nada haverá que, ao fim, possa ser aproveitado. Nem sermões bem preparados ou liturgias cúlticas. Nem ações missionárias ou grandes projetos sociais para ajudar o necessitado. O amor, aqui exposto, não é apenas superior aos dons, mas um marcador de nossa identidade Cristã. Somos dEle quando buscamos amar.

Isso significa que minha vida em Cristo não pode ser definida puramente pelos dogmas que entendo e aceito, por um lado, nem mesmo pelas experiências de espiritualidade que vivencio, por outro. Sem amor tudo será vazio de significado. Minha vida em Cristo é definida pela presença do amor que não apenas é essencial, como também é automanifesto. Para nosso temor e tremor, o Espírito descreve nesse capítulo que o amor é perceptível, ou seja, ele deixa marcas. Ele é prático, notável e visível. Ele é paciente, esperando pela hora oportuna para o outro. É benigno, fazendo com que a dor do vizinho seja também a nossa. Não arde em ciúmes, portanto evita comparações e se nega a criticar o próximo. Torna-se, assim, impossível amar sem que as marcas do amor sejam vistas pelos que passam pela mesma estrada que nós.

Precisamos amar o próximo o mínimo para não criticá-lo. Esse próximo, o outro, diferente de nós, é nossa base de testes, o cenário no qual devemos aprender a praticar o ato mais sublime que vem do Pai, e somente dEle.

Tenho percebido que o amor prova a espiritualidade. Somos naturalmente seres construtores de máscaras e tais máscaras tendem a esconder aquilo que é nitidamente carnal e vergonhoso. Assim, usando máscaras bem elaboradas, podemos falar sobre fé sem de fato crer; pregar contra o pecado sem intimamente repudiá-lo; expor sobre o amor e na manhã seguinte prejudicar o irmão. Um mecanismo que claramente prova nossa espiritualidade são os atos de amor.

O oposto do amor também é evidente. Gera incrível tolerância com nossas próprias limitações e fraquezas enquanto torna-se gravemente intolerante com o próximo. Desta forma, se alguém conversa com formalidade, é antipático, mas se nós o fazemos somos respeitosos. Se alguém brada ao pregar, está sendo artificial. Se nós bradamos é sinal de espiritualidade. Se alguém não faz, é preguiçoso, mas se nós não fazemos somos ocupados. Se alguém contrai uma dívida é irresponsável. Se nós nos endividamos é porque recebemos pouco. Se alguém discorda é soberbo, mas se nós discordamos somos criteriosos. Se alguém critica, ele o faz por estar tomado de inveja ou ciúmes. Se nós criticamos estamos sendo zelosos. Se alguém repete um sermão, está sendo desleixado, mas se nós o fazemos Deus quer falar novamente ao seu povo. Se alguém erra, era de se esperar vindo dele. Se nós erramos, errar é humano. Se alguém cai, suas atitudes carnais já indicavam isto. Se nós caímos, o inimigo preparou-nos uma armadilha. Se alguém brinca, está sendo mundano. Se nós brincamos somos informais. Se alguém ofende no falar é descontrolado. Se nós o fazemos somos sinceros. Sim, a ausência de amor falsifica a vida cristã e um dos claros sinais é a grave intolerância com o próximo e a permissividade conosco.

No precioso capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, do versículo nove em diante, vemos que o amor é um aprendizado. Eu era menino e agora sou homem, via de forma obscura, agora vejo claramente. Ou seja, amar é um processo, uma caminhada. Nós não nascemos amando.

Para amarmos, devemos pedir que Ele nos ajude. O salmista, no Salmo 119, afirma que andará nos caminhos do Senhor quando Ele dilatar o seu coração. Precisamos de corações dilatados, abertos, prontos para amar. Peçamos ao Pai, pensando nos cenários diários de nossas vidas, dizendo: ensina-me a amar. Para investirmos na jornada do amor creio que é preciso nos desapegar daquilo que é incompatível com o amor. John Edwards, em seu livro Afeto Religioso, fala-nos sobre a incompatibilidade do amor com as palavras de agressão. Devemos nos desapegar daquilo que pretere e cerceia o amor em nossas vidas. Jamais amaremos enquanto nossa agenda diária estiver repleta de competitividade, ciúmes, falso zelo, comparações desnecessárias, soberba e agressões.

Creio que, além do já descrito, o amor também nos conduz à missão. Somos todos certamente capazes de apregoar os fundamentos da missão e expor com clareza o conceito de sua integralidade. Mas, sem amar continuaremos passando ao largo perante o caído ao longo do caminho, que sofre, e virando o rosto aos que ainda não ouviram de Jesus. Seremos, assim, cristãos de gabinete, escrevendo sobre o que não experimentamos, ou cristãos pragmáticos, fazendo o que é certo pelos motivos errados, sem amor.

Lutero, citado por Mahaney em seu livro “Glory do Glory”, disse-nos que “esta vida, portanto, não é justiça, mas crescimento em justiça. Não é saúde, mas cura. Não é ser, mas se tornar. Não é descansar, mas exercitar. Ainda não somos o que seremos, mas estamos crescendo nesta direção. O processo ainda não está terminado, mas vai prosseguindo. Não é o final, mas é a estrada. Todas as coisas ainda não brilham em glória, mas todas as coisas vão sendo purificadas”.

Após pregar sobre os essenciais da nossa fé na Igreja Konkomba de Gana em 1999, lembro-me que um dos crentes me procurou após o culto perguntando: por onde devo começar? Fui para casa pensando nessa pergunta. No outro dia o procurei e rapidamente o encontrei embaixo de uma árvore rodeado por amigos em alegre conversa. Sentei-me ao seu lado e sussurrei no seu ouvido: comece procurando aquele com o qual você foi intolerante, e não amou como Cristo. Após um minuto, pensativo, ele se levantou e saiu caminhando com passos curtos e lentos. Santa caminhada. Nada fácil, mas alegra o coração daquele que é Amor.

Artigo escrito por Ronaldo Lidório.
Retirado de Missão Para o Interior da África

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